
Um salve as mulheres!
Caminham por quilômetros em busca de água, carregam sacos super pesados na cabeça, levam seus filhos pendurados nas costas, trabalham em suas plantações; semeando e colhendo debaixo de sol, cuidam da casa, preparam os alimentos, e apóiam seus maridos, que muitas vezes vivem por meses, e até anos, em outro país em busca de emprego.
Aprendem desde pequenas, quando suas mães ou avós adoecem e não podem lidar com as tarefas. Ainda crianças, as que tem a sorte da presença do pai em casa são incumbidas, geralmente aos 12 anos, da responsabilidade de todas as manhãs esquentar a água que servirá para o chá e o banho do chefe da casa antes que saia para o trabalho. Além de árdua, essa tarefa quase sempre custa a integridade dessas mulheres e causa cicatrizes que serão carregadas por elas para sempre; marcas de queimaduras estão sempre visíveis.
Os seios, aqui pelo menos, perderam, ou melhor, nunca ganharam o simbolismo sexual que tem em nossa sociedade. Servem, e são vistos, puramente como fonte de alimento. E isso me causou certa estranheza no começo, confesso. Afinal, nunca vi tanto peito de fora e é difícil agir com naturalidade no começo ao conversar com uma mulher que, de repente, saca um seio para fora e o dá a criança tão naturalmente quanto fala.
A virtude sofrida, a força forçada e a devoção incondicional, condicionada, da mulher Moçambicana, retratadas nas batiques que tanto vi antes de chegar aqui, só fazem crescer o respeito, admiração e encanto por esse ser que alegra a razão, e emoção, de nossa existência. Enfim, viva a mulher, a Moçambicana, a Africana; irmã, mãe, tia e avó.
Aventura à Malawi, caraca! Pessoas, paisagens, histórias e perrengues.
Durante o período em que estarei aqui tenho direito a duas semanas que eles chamam de “período de investigação”. Uma posso escolher o rumo, enquanto que na outra eles me encaminham para uma missão específica.
Semana passada foi minha primeira semana. Decidi fazer, juntamente com Carlos –meu colega de projeto – uma viagem alternativa: subir de Maputo, bem ao sul do país, até Tete, bem ao norte, e de lá cruzar a fronteira para Malawi, e visitar meus amigos voluntários que foram trabalhar nos projetos de lá.

Uma das partes da viagem, 7 horas nesse ônibus: por fora uma maravilha, por dentro espaço apenas para mover os dedos da mão.
A ida durou dois dias, que mais pareceram quatro. O caminho, além de longo, é sofrido devido ao transporte roots; apertado, desconfortável e cheio de malas e de gente, e ao caminho; buracos, com alguma coisa de estradas, na maioria das vezes não pavimentadas, entre eles. Apesar disso, viajar por Moçambique é fantástico.
As únicas coisas que vi em comum entre todas as cidades que percorri foram o sorriso do povo e o olhar curioso sobre mim. Tirando isso, muitas e ricas diferenças. Desde clima, vegetação, estilo de construção e organização a elementos históricos curiosos.

Parte da história: minas terrestres ainda fazem parte da realidade de Moçambique
Em uma delas, por exemplo, me deparei com um antigo container com a inscrição “explosivos” que trouxe, durante o período de guerra pela independência, minas terrestres que até hoje continuam perdidas por muitos locais no país.
A maior parte do território moçambicano é plana. Porém, ao norte o cenário muda. E muda muito. A planície começa a dividir espaço com algumas montanhas que se aproximam no horizonte. A savana dá lugar a uma vegetação diferente, mais rica em árvores, em verde e em amarelo. Sim, amarelo é uma cor que se espalha por alguns campos ao norte com as extensas plantações de gira-sol. O cenário nesses locais fica ainda mais lindo e interessante: a vida rústica, simples e dura das famílias misturada com a delicadeza dessas flores que crescem e geram rendimento com a venda.

Pena que não paramos em nenhuma dessas áreas para tirar uma foto melhor.

Estilo comum de construção ao norte, diferente do sul onde as casas são todas feitas com capim

Apesar das diferenças todas, a realidade é bem parecida.
O moçambicano é em geral muito amigável e gosta de fazer novas amizades. Mas, nessa viagem, foi um angolano maluco que monopolizou a atenção geral. De passagem por Moçambique para chegar à Zâmbia, pegou o mesmo ônibus que nós e foi causando o caminho quase todo. Cantava, gritava, dançava, aplaudia o motorista e não nos deixava dormir com suas intermináveis histórias e aventuras pelo Brasil. E, o mais engraçado, ficava comparando seu povo com os moçambicanos e sempre dava vantagem, em tudo, aos seus. Desde mulheres mais bonitas e melhores empregos por causa do petróleo até na competência e disposição para o trabalho, os angolanos, segundo ele, são melhores. Enquanto falava, víamos os moçambicanos olhando a todo o momento com certo incômodo. E o pior é que o danado falava alto e muito, e só nos deixou em paz quando aceitamos tirar uma foto com ele; “uma lembrança do amigo angolano”, dizia. Ao final da viagem, se despediu dizendo: “quando eu voltar ao Brasil vou procurar vocês”. A única resposta que consegui dar na hora foi “Rio de Janeiro é a cidade mais bonita, você devia conhecer”.

“uma lembrança do amigo angolano”, dizia. Pessoa engraçada.
Muitos quilômetros e histórias depois, chegamos à Malawi. Já na fronteira fomos surpreendidos pela demora e enrolação do oficial da imigração. Passava das 18h e nós éramos os únicos lá. Depois de alguns vais e vens e de algumas perguntas estranhas, percebemos a situação. O oficial estava fazendo de tudo para oferecermos dinheiro a ele. Colocou, inclusive, menos dias na permissão de estada do que havíamos pedido, propositadamente. Fdp! E logo na sequência disse: “ops, temos um problema. Coloquei menos dias do que vocês pediram”. Quando perguntamos o que ele poderia fazer para corrigir o erro, respondeu: “terei que falar com meu superior”. Dissemos OK, esperaremos. “Mas se oferecermos algo para ele será mais fácil”, completou o danado. Nessa hora fiquei realmente puto. E o pior nessas situações com policial corrupto é que não podemos ser agressivos como dá vontade, pois se não piora. Principalmente em outro país. E a pior parte disso tudo é que já estávamos com o visto para entrar no país, pois tínhamos ido até a embaixada de Malawi, em Maputo, pago 100 dólares (isso, 100 dólares só para entrar naquela mer…) e recebido o visto. O puto deveria carimbar os passaportes só e nos deixar passar. Nessa hora, irritado, pedi nossos passaportes que estavam na mão dele e disse que não precisava alterar. Como estaríamos perto da capital de Malawi, iríamos até o Ministério de Relações Exteriores, explicaríamos o que havia acontecido e solicitaríamos a extensão do prazo. Ele desconversou, levou nossos passaportes para a sala do suposto superior e, 5 minutos depois, voltou com os passaportes corrigidos. Asshole!
Essa, na fronteira, foi a primeira tentativa de enganação que sofremos. Depois dela, passamos por mais, no mínimo, cinco outras em situações diferentes: taxi, transporte público, mercado… todos querendo tirar uma lasca do turista. Isso irrita e dá pena até. Malawi já é o segundo país mais pobre do mundo e, certamente, depende muito do turismo para manter a economia. Mas, dessa maneira, não há turista que volte ou recomende.
Fora isso a semana em Malawi foi tranquila. Mesmo porque dos seis dias em que passei por lá, três fiquei dentro da casa que estava hospedado. Por azar, acertei bem a semana da eleição presidencial e todos as pessoas que conheci me aconselharam a ficar fora das ruas entre os dias de votação e anúncio dos resultados. Isso porque em anos anteriores houve muita confusão, violência e até agressão a turistas por parte de eleitores descontentes com o resultado das urnas. E com os avisos todos, achei melhor respeitar. Mas, das possibilidades todas, a mais desejada pela população e, portanto, mais pacífica, acabou ganhando.
Não soubemos de nenhum caso de violência ou qualquer coisa negativa. Porém, um fato que aguçou muito minha curiosidade é que no dia exato da votação a rede de telefonia celular ficou fora do ar da manhã até a noite. Tentamos ligar para nossos amigos que estavam em outra localidade por várias vezes durante o dia, de telefones diferentes, e a mensagem “rede ocupada” apareceu em todas elas. Estranho, né? Não consegui confabular nenhuma teoria da conspiração convincente o suficiente ligada a esse fato. Mas, se eu fosse o mandante de um esquema de manipulação de resultados de uma eleição, certamente a primeira coisa que faria seria boicotar os sistemas de comunicação para dificultar troca de informações que pudessem colocar em risco meu plano.
Bom, continuando, deixei Malawi na sexta-feira rumo à fronteira com Moçambique. Voltei sozinho, pois Carlos decidiu deixar o projeto e voltar ao Brasil diretamente de Malawi. A intenção era voltar pela mesma fronteira que havia entrado e realizar, na volta à Maputo, o mesmo trajeto de ida. Mas, por uma cagada mundana (fui traído pelos pensamentos que vagavam pelas intermináveis plantações de chá da paisagem), fui parar em outra fronteira, 400 km distante da que pretendia chegar. Resolvi cruzar aquela mesmo para não perder mais tempo. Na própria fronteira, conversando com as pessoas que estavam cruzando, consegui uma carona com um caminhoneiro que se ofereceu me levar até a cidade grande mais próxima, uns 600 km de distância. Até ali, tudo excelente! Subi no caminhão e fomos.
Você ao ler “600 km de distância” deve ter pensando em seis ou sete horas de viagem, certo? Seria, no Brasil talvez. Quando nos aproximávamos dos 200 km viajados, depois de quase seis horas de trancos e solavancos, o motorista começa com uma conversa estranha que me mostrava a intenção de cobrar por aquela carona. Entendi o recado e perguntei logo quanto ele queria. Disse-me setecentos meticais, mais ou menos 340 reais. “Muito caro”, respondi. Afinal, havia desembolsado mil e trezentos meticais para quase cruzar o país de sul a norte (de Maputo à Tete). Como percebi que não haveria negociação, resolvi descer na cidade mais próxima. E assim o fiz, desci em uma pequena cidade chamada Mocuba pagando trezentos meticais pela “carona”. Cheguei à cidade um pouco antes das onze da noite. Tudo estava fechado, escuro e silencioso. Junto comigo estava um moçambicano que também havia “pago” carona com o caminhoneiro e descido em Mocuba para seguir para outra cidade; a mesma que eu havia decidido ir para tentar a sorte para voltar à Maputo.
Andamos até o terminal de ônibus / mini-vans para perguntar o horário que o primeiro carro sairia pela manhã. Por sorte, o senhor que estava lá para nos dar informação era o motorista do primeiro carro a sair pela manhã. Conversamos um pouco com ele para pedir informações de onde poderíamos comer, dormir etc, e ele acabou por nos oferecer o próprio ônibus para nos abrigar naquela noite. Fazia frio, não era muito confortável, mas pelo menos era um lugar protegido onde pude relaxar e descansar algumas horas.
Na manhã seguinte, fui à Quelimane. Chegando lá, depois de mais cinco horas de viagem, tinha duas opções: continuar a aventura para o sul por mais dois dias até chegar à Maputo, ou pegar um vôo que me faria chegar em casa em duas horas. Cansado, longe de tudo e com espírito aventureiro enfraquecido, tirei o chapéu de Indiana Jones e rumei ao aeroporto.
No final das contas, fiquei muito feliz com a viagem, que me fez percorrer e conhecer muito desse país que me encanta e, principalmente, por ter revisto pessoas queridas que conviveram comigo durante intensos seis meses em Saint Vincent, no Caribe.
As aulas na universidade
A semana antes de minha viagem foi a mais interessante de todas. Afinal, foi a semana de comunicação! E foi a primeira vez que dei “aulas” dentro de temas ligados a minha profissão, Relações Públicas. E me surpreendi com o resultado até. =)
E o mais interessante de tudo foi que pela primeira vez pensei em “comunicação para sustentabilidade” vivendo de perto a necessidade de implementar o “ser sustentável”. Antes daqui, sustentabilidade era apenas uma palavra bonita que falava e escutava em reuniões com um bando de engravatados, em uma sala super confortável, bebendo café, e que, geralmente, terminavam com um almoço em algum restaurante caro. E aqui pude perceber a “pequena” diferença entre aquele conceito de sustentável e esse que vivo na prática. Basicamente, aquele está ligado a sustentabilidade do caixa de empresas e organizações, enquanto esse trabalha a manutenção de práticas e conhecimentos básicos e autônoma de pessoas pobres que mal tem o que comer todos os dias. E a conclusão que chego é que é fácil, divertido e até bonito discutir sustentabilidade quando o radical da palavra não está ameaçado em nenhuma das partes envolvidas.
Bom, voltando, naquela semana dei aulas de segunda a quinta, durante manhã, tarde e noite. Foi exaustivo, mas excelente. Falamos de princípios básicos de comunicação, dos meios de comunicação e suas potencialidades (positivas e negativas), conceitos básicos de jornalismo e fotografia, “técnicas de apresentação” e importância dela no trabalho com pessoas menos favorecidas e do papel dos instrumentos de comunicação como apoiadores dos trabalhos exercidos por eles nas áreas em que trabalham. E essa última foi a mais interessante, uma vez que pudemos unir o conceito de sustentável, aula que já havia dado a eles algumas semanas antes, com o potencial educativo das ferramentas de comunicação e como utilizá-las.
Falando assim fica um pouco abstrato, não? Mas, é mais simples do que parece. Na prática, estou falando de, por exemplo, a utilização de rádios movidos a energia mecânica nas vilas que permitem uma organização comunitária visando diminuir as proporções do impacto de enchentes, uma vez que a vila terá acesso às previsões e não será pega de surpresa. Ou, ainda, de palestras com o tema nutrição para um grupo de mulheres pobres portadoras de HIV, que geralmente não tem acesso aos antiretrovirais, as ensinando como maximizar a dieta alimentar de forma simples e sem custo, ou baixo custo, entregando a elas ao final uma cartilha com as “receitas”.
O primeiro exemplo que dei é de uma ação fantástica realizada pela Cruz Vermelha de Moçambique que organiza as vilas em áreas de risco e salva milhares de pessoas por ano. O segundo é nosso! =) Dei aula aos meus alunos de nutrição, focando em sua importância e, principalmente, em mal nutrição; como identificá-la, tratá-la e evitá-la. O grupo de alunos que decidiu trabalhar com essas mulheres pobres soropositivas transformou o conteúdo que dei em palestra, e a apresentação de slides da aula em uma cartilha para entregar as mulheres. E como você sabe, o HIV não mata. O que mata são as doenças oportunistas que aparecem enquanto seu sistema imunológico é inutilizado pelo vírus. E, para evitá-las, uma boa e rica nutrição é, literalmente, vital.
Além disso, nas aulas que falamos de televisão especificamente, dei como tarefa a criação de um programa de TV. Deixei a produção de tudo a cargo deles. Coloquei, porém, só um condicionante: o tema abordado no programa deve ser um dos assuntos trabalhados no campo com as famílias. Foi uma experiência sensacional! Eles escolheram a pauta, dividiram os papéis que cada um exerceria, desde apresentadores a entrevistados, escreveram o roteiro, produziram tudo –inclusive propaganda para os intervalos- e gravamos! Claro que o processo foi muito mais complicado que isso, afinal, foi a primeira experiência deles com TV. Ao final, editei os programas e fizemos uma exibição pública. Além de aguçar a criatividade dos alunos, eles pesquisaram mais acerca dos temas importantes para o trabalho deles e se sentiram motivados com o resultado do esforço; por mais simples e amador que tenha sido.
Colocarei um deles abaixo. Tive que diminuir muito a qualidade do vídeo para ser possível publicá-lo aqui, mas dá para ter uma idéia do que foi. =) O cenário de fundo é a universidade onde estou.
Fora isso, dei também aulas de inglês nas noites.
Na próxima semana receberemos um grupo de estadunidenses que virão dar aulas de “economia no desenvolvimento comunitário”. Pelo que li na proposta deles, parece ser bem interessante. Principalmente pois pretendemos trabalhar com iniciativas de micro-crédito nas comunidades, mas está difícil iniciar. Ou seja, semana próxima serei aluno.
Próxima viagem já programada!
Como disse anteriormente, ainda tenho mais uma semana de investigação para cumprir. E essa deve ser indicada pela própria ONG. Querem que eu vá para uma cidade no centro do país chamada Inhambane para acompanhar o trabalho de uma universidade do governo que tem um curso de pós-graduação similar com o nosso: desenvolvimento comunitário, e que, dizem, tem feito um trabalho muito bom com as aldeias por lá. Ou seja, próxima aventura se aproxima. =)
E eu, como estou? hehe
Bem e feliz, de verdade, obrigado. =)
Já viu o clipe abaixo?
Bom, por hoje é só. Caraca! Só tenho mais 3 meses aqui!
Beijos
Thi














































































